Rio de Janeiro (RJ) – No painel de encerramento do Agenda Setorial 2026, realizado na última quinta-feira,19/03, no Rio de Janeiro, a Abrage (Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica) trouxe à tona um alerta fundamental: o Brasil não pode garantir o futuro do seu setor elétrico com as ferramentas do passado. Com o tema central focado no Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP), novas tecnologias e flexibilidade, a presidente executiva da associação, Marisete Pereira, defendeu que a confiabilidade do sistema exige uma revisão profunda e coordenada do modelo institucional.
Sob a moderação de Joisa Dutra, diretora do FGV CERI, o debate percorreu temas críticos como competitividade, aprimoramentos de mercado e o peso dos subsídios. Questionada sobre a eficácia da contratação dos 2,5 GW em hidrelétricas no recente certame para garantir a segurança do sistema, Marisete foi enfática ao validar o volume, mas apontar para distorções econômicas que ainda precisam ser corrigidas.
O Custo da Confiabilidade e a Defasagem de Preços
Embora a contratação de potência hidrelétrica seja um passo positivo, a presidente da Abrage ressaltou que a precificação do produto hídrico não refletiu a realidade atual do mercado global. Marisete destacou que os R$ 11 bilhões em investimentos previstos para a ampliação das quatro usinas hidrelétricas vencedoras — situadas estrategicamente nos estados de Minas Gerais (MG), São Paulo (SP), Paraná (PR), Goiás (GO), Pernambuco (PE) e Bahia (BA) — representam um esforço gigante de capital das associadas que precisa de sustentabilidade financeira.
“Apesar desse volume, a precificação poderia ser melhor. O aumento do custo dos equipamentos no mercado internacional, impulsionado por conflitos globais, justificaria uma mudança. Da mesma maneira que houve uma revisão de preços para o produto termelétrico, o produto hidrelétrico também deveria ter sido reavaliado para refletir esses novos patamares de custo de mercado”, alertou Marisete.
Para a Abrage, sem uma remuneração que reflita o custo real de reposição e manutenção dos ativos, corre-se o risco de desencorajar investimentos necessários para a modernização das plantas existentes, que são, na prática, as grandes baterias do sistema brasileiro.
O Desafio da MMGD e o Desenho de Mercado Exaurido
Outro ponto de atenção levado pela Abrage ao palco do Agenda Setorial foi o crescimento acelerado da Micro e Mini Geração Distribuída (MMGD). Historicamente impulsionada por subsídios cruzados e pela queda expressiva no custo da tecnologia solar, a MMGD saltou de uma participação incipiente para um volume que hoje altera drasticamente a curva de carga do sistema.
Marisete alertou que essa expansão, embora contribua para a matriz limpa, traz uma instabilidade operacional que não pode ser ignorada. O sistema hoje sofre com um déficit de flexibilidade e potência para cobrir as rampas de carga ao entardecer, um cenário que o desenho de mercado de 2004 — pensado para uma realidade de carga previsível e fontes controláveis — já não consegue mais refletir ou gerir com eficiência.
Um Chamado à Ação Coordenada
Para a presidente da Abrage, a solução não pode ser fragmentada. A instabilidade atual exige uma abordagem sistêmica que garanta racionalidade econômica e segurança jurídica para os investidores, sem perder de vista a modicidade tarifária para o consumidor final.
“Se quisermos manter o Brasil como referência mundial em matriz limpa e líder da transição energética, precisamos de visão estratégica e ação coordenada. Não podemos mais navegar com um modelo que penaliza quem sustenta a base e a confiabilidade do sistema”, concluiu.
A participação da Abrage no evento reafirma o compromisso da associação em liderar o debate técnico para que os serviços prestados pelas hidrelétricas sejam reconhecidos como o pilar central da estabilidade energética brasileira.