O Sistema Interligado Nacional (SIN) vive uma metamorfose. Se antes as usinas hidrelétricas (UHEs) eram as “maestras” de uma orquestra previsível, operando em regime de base e fluxo contínuo, hoje elas assumiram um novo papel: o de guardiãs da estabilidade e da flexibilidade operativa. Com o avanço das fontes eólica e solar e as mudanças no padrão do consumo de energia elétrica, as hidrelétricas tornaram-se um dos principais recursos para acomodar a variabilidade da geração e do consumo, entregando a flexibilidade necessária para que o Brasil não pare. No entanto, essa entrega tem implicações técnicas e econômicas que não estão adequadamente refletidas nas regras atuais do setor.
A Abrage, que representa cerca de 24 geradoras responsáveis por mais de 90% da capacidade hidrelétrica do país, posiciona-se de forma clara: o modelo regulatório precisa evoluir para reconhecer e remunerar adequadamente esse serviço de flexibilidade.
O Salto nas Operações: O Desgaste em Números
A mudança no modo de operação das UHEs não é apenas uma percepção teórica; ela é amparada por dados contundentes. Um levantamento realizado pela Abrage com 102 usinas revelou que o número de partidas e paradas das unidades geradoras disparou nos últimos anos.

Fonte: Informações das Associadas da Abrage
Em 2024, o volume de manobras de partida e parada foi 62% superior ao registrado em 2015. Embora a entrada de novas usinas como Belo Monte e Jirau tenha contribuído para o aumento absoluto, o crescimento é muito superior ao esperado para o período. O fator determinante é a alteração no despacho: as hidrelétricas agora operam para modular a geração e acompanhar as variações de carga do sistema, associadas tanto à maior participação de fontes com produção não controlável quanto às mudanças no perfil de consumo de energia ao longo do dia.
Do Regime Contínuo ao Intermitente: O Risco aos Ativos
Para entender o impacto dessa mudança, é preciso olhar para a engenharia por trás das máquinas. Historicamente, a maioria das UHEs brasileiras foi projetada sob a norma IEC 60034-1, com foco no regime S1 (Contínuo).
A tabela abaixo detalha como a mudança para regimes intermitentes afeta a infraestrutura:

Fonte: Norma IEC 60034-1 – Rotating Electrical Machines
Essa transição para os regimes S3 e S4 causa esforços térmicos e mecânicos que aceleram o desgaste de enrolamentos, fadiga de núcleos e estruturas metálicas. Na prática, isso significa que a vida útil projetada de uma usina pode ser encurtada em anos, exigindo manutenções não programadas e antecipação de grandes reinvestimentos (CAPEX).
O Pleito da Abrage: Valorização e Sustentabilidade
O modelo atual do setor elétrico brasileiro ainda não reflete integralmente as transformações recentes da matriz e do perfil de consumo: as hidrelétricas absorvem parcela relevante dos impactos operacionais desse novo modo de operação, com maior desgaste e custos de O&M sem a devida contrapartida regulatória.
A Abrage defende que o serviço de flexibilidade seja formalmente reconhecido como um atributo sistêmico. É fundamental que as políticas de remuneração e planejamento reflitam esses custos reais para garantir a sustentabilidade dos empreendimentos no longo prazo. Somente com sinais de preço adequados e critérios de remuneração ajustados, poderemos assegurar o reconhecimento e a adequada valorização da contribuição da hidreletricidade para um sistema elétrico seguro, limpo e competitivo.
Nota Técnica Relacionada
Confira abaixo a íntegra da Nota Técnica enviada pela Abrage ao Ministério de Minas e Energia (MME), detalhando os estudos e as propostas da associação para a adequada valorização da flexibilidade hidrelétrica no SIN.
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