Belém (PA) — A importância estratégica da hidroeletricidade para a segurança energética, hídrica e a soberania nacional deu o tom dos debates do IV Workshop Abrage e CBDB, realizado ontem, quinta-feira (24/09), em Belém (PA). O encontro reuniu lideranças do Ministério de Minas e Energia (MME), EPE, ONS, Cepel, CBDB e representantes das principais geradoras do país para discutir os rumos da fonte hidráulica diante do crescimento expressivo das fontes renováveis intermitentes (solar e eólica) e o aumento contínuo da demanda por eletricidade.
Na abertura do evento, a diretora da Abrage, Camilla Fernandes, enfatizou a correlação direta entre eletrificação, infraestrutura e o desenvolvimento do país:
“O Brasil precisa continuar crescendo e a gente tem ainda uma demanda importante que vai crescer! O nosso povo precisa de mais energia para termos qualidade de vida; as pessoas demandam e demandarão cada vez mais processos eletrificados e conexão. Para que isso aconteça, será preciso expandir redes, infraestrutura e, em especial, os serviços que as hidrelétricas são altamente capazes de entregar ao país.”
A diretora celebrou o resultado histórico do recente Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) de 2026, que contratou pela primeira vez um produto hidrelétrico dedicado, viabilizando 2,5 GW de nova capacidade e cerca de R$ 11 bilhões em investimentos.
“Isso é só uma parte do potencial disponível: tivemos 6 GW cadastrados. Temos carteira de projetos, investidores e uma cadeia de fornecedores pronta e ansiosa para entregar. Agora, o passo seguinte é quantificar e valorar adequadamente os atributos hidrelétricos: precisamos discutir quanto custa disponibilizar essa flexibilidade e quanto vale para o sistema tê-la à disposição. Além disso, miramos o futuro com a certeza de que as usinas reversíveis serão uma realidade em breve”, completou Fernandes.
O Secretário Nacional de Energia Elétrica do Ministério de Minas e Energia-MME, João Daniel Cascalho, corroborou a necessidade de avanços regulatórios para remunerar os múltiplos atributos do parque hídrico:
“O sistema elétrico tem mudado de forma consistente e cabe ao poder concedente apresentar soluções robustas para garantir a segurança do consumidor. No MME, entendemos que flexibilidade vai além de apenas atender à demanda instantânea: precisamos avançar na definição de critérios claros e na remuneração justa de serviços ancilares e de todas as entregas que essas usinas fazem ao sistema.”
Representando o CBDB, o diretor técnico, José Marques Filho chamou a atenção para a resposta técnica aos eventos climáticos extremos — citando as recentes tragédias no Rio Grande do Sul —, a relevância de múltiplos usos da água pelas barragens e a preservação da engenharia nacional. Marques Filho também pontuou a urgência de aprimorar a comunicação do setor com a sociedade sobre os desafios operacionais da transição energética, a exemplo dos impactos operacionais da “curva do pato”.
Painéis Temáticos
Ao longo do dia, especialistas aprofundaram temas técnicos e regulatórios divididos em quatro eixos:
Prestação de serviços ancilares e flexibilidade operativa: Técnicos da EPE, ONS e MME avaliaram as exigências de resposta rápida e suporte de rede fornecido pelas UHEs diante da volatilidade da geração solar e eólica.
Projetos vencedores do Leilão de Reserva de Capacidade 2026: Executivos da Axia Energia, Copel, SPIC Brasil e Engie Brasil apresentaram o planejamento das obras de ampliação das usinas viabilizadas no certame.
Desgaste por partidas e paradas das unidades geradoras: Pesquisadores do Cepel, técnicos do MME e geradores analisaram os efeitos mecânicos, custos e a vida útil dos equipamentos hidrelétricos submetidos ao novo perfil de despachos intermitentes.
Boas práticas e segurança de barragens: Cemig, Copel e CBDB compartilharam avanços metodológicos no monitoramento e governança de estruturas civis.
Lançamento: Guia de Aplicação da Matriz GUT na Segurança de Barragens
O encerramento do workshop foi marcado pelo lançamento do Guia de Boas Práticas para a Aplicação da Matriz GUT na Gestão da Segurança de Barragens, elaborado pela Abrage.
De natureza orientativa e não vinculante, a publicação foi desenvolvida para uniformizar procedimentos, aumentar a transparência e apoiar os geradores na priorização técnica de manutenções, inspeções e anomalias registradas no âmbito do Plano de Segurança da Barragem (PSB). A metodologia estrutura critérios com notas de 1 a 5 para Gravidade, Urgência e Tendência, gerando uma pontuação objetiva alinhada às diretrizes da Resolução Normativa ANEEL nº 1.064/2023.
A iniciativa reduz a subjetividade na tomada de decisão, otimiza a alocação de investimentos operacionais (Opex) e de capital (Capex) e mitiga riscos ao longo do ciclo de vida das UHEs, resguardando a sustentabilidade e a eficiência do setor hidrelétrico nacional.