A transformação digital das usinas hidrelétricas já deixou de ser uma perspectiva distante. Em um setor marcado por ativos de longa vida útil, necessidade de alta disponibilidade e crescente flexibilidade operacional, o uso estruturado de dados, inteligência artificial e ferramentas avançadas de monitoramento tornou-se parte importante da gestão de ativos de geração.
As apresentações realizadas no encontro presencial do Comitê de Operação e Manutenção da Abrage, em agosto de 2026, mostraram que essa transformação pode ocorrer de forma gradual. Mesmo usinas que ainda possuem sistemas convencionais podem incorporar sensores, sistemas de comunicação, plataformas de análise e recursos de monitoramento remoto, preservando investimentos existentes e priorizando os equipamentos mais críticos.
O primeiro passo é transformar dados operacionais em informação confiável. Variáveis como vibração, temperatura, pressão, fluxo magnético, descargas parciais, posição e condições de carga podem ser analisadas de forma integrada para identificar desvios dos comportamentos esperados. Com isso, as equipes deixam de depender exclusivamente de alarmes fixos ou de manutenções baseadas apenas em calendário.
A manutenção preditiva amplia essa capacidade. Modelos estatísticos, algoritmos de machine learning e modelos híbridos, que combinam conhecimento físico com dados históricos, ajudam a reconhecer padrões anormais, correlacionar sinais e estimar a evolução de uma condição degradada. A análise pode indicar não apenas que existe um desvio, mas também sua provável causa, sua velocidade de evolução e o tempo disponível para planejar uma intervenção.
Essa mudança tem impacto direto na operação. Um diagnóstico antecipado permite organizar uma parada programada, mobilizar recursos, adquirir peças e reduzir a probabilidade de uma falha forçada. Também contribui para decisões mais seguras sobre carga, regime de operação e continuidade do funcionamento de um equipamento.
O desafio ganha importância com a transformação da matriz elétrica. A maior participação de fontes variáveis, como solar e eólica, exige que as hidrelétricas operem com mais flexibilidade, enfrentando maior número de partidas e paradas, variações rápidas de carga, períodos em carga parcial e transitórios mais frequentes. Esses regimes podem acelerar processos de fadiga, vibração, cavitação, aquecimento e degradação de componentes.
Nesse contexto, monitorar apenas o estado instantâneo do equipamento pode ser insuficiente. A gestão de ativos precisa acompanhar também o histórico de solicitações e o dano acumulado ao longo dos ciclos operacionais. Ferramentas capazes de relacionar condições de operação, tensões, vida remanescente, risco e custos de manutenção podem apoiar decisões mais completas, conectando a engenharia de integridade à gestão econômica dos ativos.
Outro tema relevante apresentado foi o uso de inteligência artificial em ambientes com poucos registros de falhas reais. Em sistemas de geração, falhas graves são naturalmente raras e não podem ser provocadas para formar bases de treinamento. Por isso, técnicas de detecção de anomalias, modelos reduzidos, gêmeos digitais e geração de dados sintéticos podem complementar os registros históricos.
Essas tecnologias ainda exigem validação técnica, dados de qualidade e participação de especialistas. A inteligência artificial pode reconhecer padrões difíceis de identificar por métodos tradicionais, mas a interpretação do resultado depende do conhecimento sobre a máquina, suas condições de operação e seu histórico de manutenção. A combinação entre dados, modelos e experiência da equipe é que transforma uma previsão em uma decisão confiável.
As experiências apresentadas também reforçaram a importância da padronização. Programas corporativos de monitoramento, com critérios claros de criticidade, risco, vida útil, relevância sistêmica e disponibilidade de dados, permitem direcionar investimentos para onde eles produzem maior benefício. A integração entre sistemas de operação, tecnologia da informação, manutenção, engenharia e gestão de ativos reduz a fragmentação e melhora a qualidade das decisões.
É nesse ponto que a Abrage exerce um papel essencial. Ao reunir grandes geradores, fornecedores, centros de pesquisa e especialistas, a Associação cria um ambiente para compartilhar experiências, comparar metodologias e discutir desafios comuns. Esse intercâmbio ajuda o setor a aprender mais rapidamente, evita a repetição de erros e favorece a construção de referências técnicas aplicáveis à realidade brasileira.
A cooperação também pode avançar na definição de terminologias, indicadores, requisitos de dados, critérios de monitoramento e boas práticas de cibersegurança. Quanto maior a convergência entre as empresas, mais fácil se torna avaliar soluções, desenvolver competências e estabelecer uma base comum para a evolução da gestão de ativos.
A digitalização das UHEs, portanto, não se resume à instalação de sensores ou à adoção de uma nova plataforma. Ela envolve uma mudança na forma de operar, manter, planejar investimentos e compartilhar conhecimento. O objetivo é tornar as decisões mais antecipadas, técnicas e econômicas, preservando a confiabilidade dos ativos e aumentando a eficiência do sistema elétrico.
A Abrage contribui para esse movimento ao promover diálogo qualificado entre os grandes geradores. Ao transformar experiências individuais em conhecimento compartilhado, a Associação fortalece a capacidade de inovação do segmento e ajuda a construir uma geração hidrelétrica mais eficiente, resiliente e preparada para os desafios do futuro.