Brasília (DF)– A busca por alternativas de financiamento e soluções para o setor de energia renovável em virtude do curtailment (cortes de geração) foi o tema central de uma intensa audiência pública realizada na tarde de ontem (24/03), na Comissão de Minas e Energia (CME) da Câmara dos Deputados. Sob a presidência do deputado Joaquim Passarinho (PL-PA), o debate reuniu autoridades e especialistas para diagnosticar o desequilíbrio entre a oferta crescente e a demanda do sistema, além de apontar caminhos para a sustentabilidade econômica do setor.
Representando a Abrage (Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica), a diretora Camilla Fernandes apresentou um diagnóstico contundente: os cortes de geração já são tão expressivos que estão alterando os regimes dos rios brasileiros. Segundo os dados apresentados, mais de 80% do curtailment atinge as hidrelétricas, gerando prejuízos que transbordam dos investidores para o bolso do consumidor final.
O Descompasso entre Oferta e Demanda
Camilla destacou que, entre 2020 e 2025, o consumo máximo do sistema brasileiro cresceu 23%, enquanto a capacidade instalada disparou 47%. Esse descompasso gera uma sobreoferta que, paradoxalmente, convive com a falta de potência firme e flexibilidade em horários críticos.
Para a diretora da Abrage, o problema tem raízes em sinais de preço inadequados e na manutenção de subsídios que já cumpriram seu papel. “Precisamos de uma necessidade urgente de melhores sinais de preço no sistema, combinada com a redução e o fim de subsídios que não são mais necessários. O volume de subsídios saltou de R$ 19 bilhões em 2018 para R$ 58 bilhões no ano passado, impulsionado principalmente pela Micro e Minigeração Distribuída (MMGD)”, alertou.
Armazenamento de Energia
Um dos pontos altos do debate foi a discussão sobre o armazenamento de energia. Enquanto o mercado global avança nas baterias químicas, as autoridades presentes ressaltaram que o Brasil possui uma solução estrutural única: a água.
Julio Ferraz, assessor do Diretor-Geral da ANEEL, Sandoval Feitosa, explicou a diferença técnica crucial: “O armazenamento químico resolve problemas elétricos de poucas horas. Agora, uma questão estrutural, de mais longo prazo, só conseguimos fazer com energia potencial em reservatórios de água. Temos que voltar a discutir a capacidade de reservação de água no país. É uma fonte renovável, limpa e barata”.
Essa visão foi corroborada por Leonardo Ferreira de Oliveira, representante do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). “A gente tem que avançar na introdução e contratação de grandes armazenamentos hidrelétricos. Essa é a fronteira que a energia elétrica brasileira tem que avançar; nós temos expertise nisso e precisamos apenas de um arranjo de contratação”, defendeu ele.
Propostas da Abrage para o Futuro
Finalizando sua participação, Camilla Fernandes reiterou que o Brasil já possui “baterias naturais” instaladas — os 110 GW de capacidade hidrelétrica. A solução para o futuro, segundo a associação, passa por:
- Aproveitamento de Recursos: Valorizar os 12% da água doce do mundo que estão no Brasil.
- Modernização e Repotenciação: Ampliar a geração em hidrelétricas convencionais existentes.
- Usinas Reversíveis: Investir no armazenamento de longa duração para reduzir o problema do corte de geração e promover competição.
“Se quisermos um fornecimento seguro que promova melhores custos para os consumidores, precisamos buscar os recursos que o sistema realmente precisa: flexibilidade, controle e potência”, concluiu a diretora.
A audiência na CME reafirma o papel da Abrage na defesa de uma transição energética racional, onde o protagonismo das hidrelétricas é o pilar para a segurança jurídica e operacional do Brasil.