O setor elétrico brasileiro vive uma virada de chave histórica. Se antes o grande dilema nacional era como expandir a oferta para evitar o desabastecimento, o debate central do Enase 2026, nos dias 17 e 18 de junho, avançou para uma nova e complexa fronteira: quem vai consumir a energia abundante do país e como garantir a segurança do suprimento em uma matriz cada vez mais renovável e exposta a extremos climáticos. No centro dessa discussão, a Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica (Abrage) marcou presença em dois painéis estratégicos do congresso, apresentando soluções de longo prazo que unem o gigantismo das hidrelétricas à necessidade urgente de flexibilidade e inovação.
Superando defesas individuais por uma visão de longo prazo
Durante nossa primeira participação, a presidente da Abrage, Marisete Pereira, participou ativamente do debate “Visão Sistêmica do Setor – Superando defesas setoriais individuais”, se juntando aos representantes da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), do Gesel (Grupo de Estudos do Setor Elétrico da UFRJ) e da PSR (Consultoria PSR), com a moderação de Diogo Mac Cord, vice-presidente da Copel.
Em sua fala, Marisete provocou uma reflexão profunda sobre o descompasso entre a operação atual e o planejamento futuro. “A visão sistêmica na geração já existe do ponto de vista da operação do sistema, conduzida pelo ONS, que busca garantir segurança, confiabilidade e menor custo operacional para o conjunto do sistema elétrico”, explicou a presidente. “No entanto, essa mesma visão sistêmica ainda precisa ser plenamente incorporada aos sinais econômicos e regulatórios que orientam os investimentos de longo prazo.”
Para a executiva, o amadurecimento do setor depende de incentivos corretos que olhem para o todo, em detrimento de protecionismos isolados.
No primeiro dia de evento foram registradas a presença de várias lideranças de múltiplos segmentos — desde a indústria e academia até representantes da transmissão, distribuição, comercialização e órgãos governamentais como o Ministério de Minas e Energia (MME), a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
O redespertar das Hidrelétricas: Potência, Ampliação e Reversíveis

No segundo dia de congresso, as atenções se voltaram para a segurança de potência e armazenamento, temas que ganham ainda mais relevância diante de um cenário onde o fenômeno El Niño tende a aprofundar cortes de geração e o ONS planeja manter estoques hídricos elevados no Norte para mitigar o atraso das chuvas na transição para o período úmido. Nesse contexto desafiador, a diretora da Abrage, Camilla Fernandes, levou a visão da Associação para o painel “Repotenciação e Ampliação das UHEs e UHE Reversíveis”.
Camilla destacou que o mundo inteiro está redescobrindo o valor das hidrelétricas reversíveis e das ampliações de ativos existentes, apontando que hoje existem aproximadamente 200 GW de hisdrelétricas reversíveis em operação e mais de 100 GW em construção globalmente.
Para transpor essa realidade ao Brasil, a diretora defendeu a convergência de duas frentes: “Precisamos combinar dois instrumentos. O primeiro são sinais de preços adequados, que valorizem os atributos que o sistema efetivamente necessita. O segundo são mecanismos centralizados de contratação para garantir a segurança do suprimento, como os Leilões de Reserva de Capacidade.”
Segurança energética é a capacidade de responder quando o sistema precisa
A diretora lembrou que esse arcabouço ganhou um reforço crucial com a Lei 15.269 de 2025, que incorporou explicitamente a flexibilidade entre os atributos de interesse do sistema. “É um avanço importante porque reconhece que segurança energética não depende apenas de energia produzida, mas também da capacidade de responder quando o sistema precisa”, afirmou.
A viabilidade prática dessa tese foi chancelada pelos números do próprio Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) de 2026. O certame registrou o cadastramento de cerca de 6 GW de ampliações hidrelétricas, resultando na contratação de aproximadamente 2,5 GW. “Isso mostra que existe oferta, existe interesse dos investidores e existe capacidade de entrega. Na minha visão, estamos entrando em uma nova etapa. Grande parte dos fundamentos regulatórios e institucionais já foi construída. O próximo passo é a sinalização dos mecanismos de contratação que permitam viabilizar os primeiros empreendimentos”, projetou Camilla.
Desafios globais e os novos vetores de consumo
O Enase 2026 também colocou em pauta temas de fronteira tecnológica e regulatória, como as decisões unânimes do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) sobre o CVaR (Custo do Valor em Risco), a iminência dos leilões de baterias e armazenamento, e o futuro dos Data Centers como grandes e novos indutores de demanda.
Frente ao desafio de encontrar mercado para a energia disponível, os executivos presentes convergiram em um diagnóstico claro: o Brasil precisa de uma combinação de maior agilidade regulatória, expansão do armazenamento, planejamento de transmissão mais eficiente e, fundamentalmente, uma política industrial e nacional robusta, capaz de atrair investimentos e atividades intensivas em consumo de energia.
Para a Abrage, as repotenciações e ampliações de hidrelétricas existentes e usinas reversíveis posicionam-se como soluções perfeitamente complementares e prontas para responder à pergunta que guiará as próximas décadas: como garantir potência, flexibilidade e segurança energética em uma matriz que caminha para ser cada vez mais renovável.