Eletrificação exige competitividade, sinais econômicos e valorização dos atributos hidrelétricos, defende Abrage na Coalizão do Setor Elétrico

RIO DE JANEIRO — Converter a vocação renovável do Brasil em real motor de competitividade econômica exige mais do que ampliar o consumo de energia limpa: demanda planejamento integrado, sinais corretos de preço e o pleno reconhecimento dos atributos estratégicos da infraestrutura existente. Esse foi o tom central dos debates da 2ª Fase da Coalizão do Setor Elétrico, realizada na última sexta-feira (18/09), no Rio de Janeiro, com a presença e a contribuição ativa da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica (Abrage).

Promovido pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), com curadoria técnica e estratégica da PSR, o workshop “Os desafios e as oportunidades para o avanço da eletrificação no país” reuniu lideranças, agentes setoriais e instituições para estruturar uma agenda de longo prazo centrada em quatro pilares vitais: eletrificação, recursos flexíveis, resiliência e a racionalização de subsídios.

A visão da Abrage: planejamento integrado e remuneração de atributos

Representando a associação no 3º painel — dedicado ao tema “Eletrificação no Setor Elétrico” —, a diretora da Abrage, Camilla Fernandes, debateu os rumos da transição energética ao lado de representantes do Ministério de Minas e Energia (MME), da Associação Brasileira das Empresas de Transmissão de Energia Elétrica (Abrate) e da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), sob moderação de Angela Gomes (PSR).

Durante a sua fala, Camilla pontuou que o Brasil parte de uma vantagem estrutural invejável no cenário global — uma matriz majoritariamente renovável —, mas alertou que essa característica só se transforma em diferencial competitivo sustentável se houver sustentação em sinais econômicos adequados, infraestrutura robusta e governança previsível.

“A transição para uma economia eletrificada traz oportunidades extraordinárias, mas exige que planejamento, operação e regulação caminhem em total sintonia. É fundamental reconhecer e remunerar adequadamente a pluralidade de atributos que sustentam a nossa rede: energia, potência, capacidade de resposta, confiabilidade e a flexibilidade operativa provida pelas hidrelétricas e usinas reversíveis”, destacou a diretora.

A Abrage também defendeu que a inserção de novos e intensivos vetores de consumo — a exemplo de data centers, eletromobilidade e eletrificação industrial — ocorra de forma antecipada e coordenada no planejamento setorial. Mais do que estimar o volume de gigawatts consumidos ao ano, é indispensável mapear perfil horário, velocidade de expansão, localização geográfica e, fundamentalmente, a capacidade de flexibilização dessas cargas para que a demanda atue como aliada na otimização da infraestrutura.

Armazenamento complementar e sinergia de escalas: de MW a TW

Um dos pontos altos do workshop foi a conceituação didática apresentada pelo especialista Mario Veiga, da PSR, sobre a coexistência das tecnologias de armazenamento. Veiga sintetizou as soluções em uma visão de complementaridade por escala:

  • Baterias de TW: Usinas hidrelétricas convencionais com reservatório, com capacidade sistêmica e sazonal;

  • Baterias de GW: Usinas Hidrelétricas Reversíveis (UHRs), garantindo modulação rápida e segurança diária/semanal;

  • Baterias de MW: Baterias eletroquímicas (BESS), atuando na estabilidade instantânea e em aplicações locais (inclusive atrás do medidor).

O painel destacou o amadurecimento e a trajetória de redução de custos das baterias químicas, enfatizando que a evolução tecnológica deve ser combinada ao planejamento para identificar o momento certo, a escala ótima e o custo-benefício de cada solução. Em paralelo, reforçou-se o papel estruturante dos reservatórios hidrelétricos e das UHRs como pilares insubstituíveis de resiliência e estabilidade em uma matriz cada vez mais pautada por fontes variáveis.

“No regulation without simulation” e o papel das novas cargas

Ao longo do encontro, especialistas convergiram na premissa de que a demanda deve ser parte ativa da solução. Ao gerenciar a flexibilidade do consumo industrial, dos data centers e da recarga veicular, o sistema evita sobreinvestimentos em transmissão e distribuição, assegurando maior eficiência no uso da infraestrutura já instalada.

Nesse ecossistema, a inteligência artificial surge com dupla função: além de demandar eletricidade por meio da expansão de data centers, funciona como uma ferramenta essencial de otimização operacional — permitindo “fazer mais com menos energia”.

Para viabilizar essas transformações com estabilidade, o setor reforçou a máxima “no regulation without simulation”: qualquer mudança regulatória deve ser estritamente pautada por avaliações quantitativas rigorosas de impacto, mitigando distorções de mercado, riscos de sobrecontratação ou transferência indevida de custos e riscos à tarifa do consumidor final.

Convergência estratégica

Para a Abrage, o balanço da 2ª Fase da Coalizão consolida pautas prioritárias defendidas pelo setor gerador hidrelétrico:

  • Valorização dos atributos: Modernização regulatória que remunere flexibilidade operativa, inércia, potência de ponta e armazenamento hídrico;

  • Racionalização de encargos e subsídios: Restauração de sinais econômicos justos para atrair investimentos eficientes;

  • Modernização dos ativos existentes: Reconhecimento da vida útil e capacidade de repotenciação das usinas do país.

A eletrificação da economia é um dos caminhos mais promissores para o crescimento sustentável do Brasil, e o setor hidrelétrico permanece pronto para atuar como a âncora de confiabilidade, flexibilidade e segurança dessa trajetória.

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